A estratégia do tucano contribui
para consolidar a cultura democrática. A de Campos baseia-se no velho
personalismo
A prevalecer o quadro hoje desenhado, faremos neste ano uma
eleição presidencial diferente de todas as outras desde a redemocratização.
Pela primeira vez, os dois principais candidatos são genuínos representantes de
seus partidos.
Do lado do PT, isso não é novidade e Dilma Rousseff está escalada.
Vem do PSDB a inovação. Está claro que é cedo para decretar que chegaremos a
outubro com as intenções de voto no padrão de hoje. Mas as pesquisas são
unânimes ao mostrar que, somados, os candidatos dos demais partidos mal
alcançam 10%. Em outras palavras, a polarização entre PT e PSDB tem boa chance
de se repetir.
Desta vez, eis a questão,
os tucanos caminham para apresentar algo que não têm desde Mario Covas, um
candidato do partido. Fernando Henrique Cardoso foi lançado e se reelegeu
praticamente sobre a alcunha de “homem do real”. Em 1994 e 1998, seus eleitores
mal sabiam a sua filiação partidária. Estivesse filiado a qualquer outro, o
resultado não seria diferente.
Nas duas eleições das quais participou, José Serra foi candidato
de si mesmo. Os correligionários tinham de ouvi-lo na televisão para se
inteirar de suas pretensões e propostas. Em 2010, tanto mandava e desmandava
que levou o PSDB para onde quis: associou-o ao moralismo conservador e ao que
de mais reacionário existe na política e na sociedade brasileiras.
Geraldo Alckmin era desprezado pela elite tucana e foi escolhido
para ser derrotado por Lula. Nunca expressou o sentimento da cúpula e das bases
de seu partido (salvo, talvez, em Pindamonhangaba).
Agora, não. Aécio Neves caminha
para a eleição como candidato genuíno do PSDB. Para o bem e para o mal.
Isso fica claro no modo como responde ao dilema que angustia os
tucanos desde 2002, o de como lidar com a “herança de Fernando Henrique
Cardoso”. Ao pensarem em termos eleitorais, Serra e Alckmin fizeram o lógico:
esconderam a herança de FHC e tentaram se desvencilhar da impopularidade do
ex-presidente. Como chegou a dizer Serra em 2010, no ápice da desfaçatez: “Eu
sou o Zé que vai continuar a obra do Lula”.
Aécio, ao contrário, faz tudo para associar sua imagem àquela de
FHC. Suas propostas, seus assessores e seu discurso têm Fernando Henrique
escrito por todos os lados, a ponto de ensejar especulações a respeito da
participação do ex-presidente como companheiro de chapa (algo impensável nas
candidaturas de Serra).
Importa pouco se Aécio age assim
por obrigação ou desejo. Se ele se oferece ao posto de continuador da “herança
de Fernando Henrique” por convicção ou para assegurar a vaga de candidato do
partido. O fato é que o faz. Torna-se assim um “legítimo tucano”, expressão da
legenda e não de si mesmo.
É o oposto de Eduardo Campos,
cuja candidatura é a enésima encarnação de um fenômeno recorrente em nossa
história eleitoral, o personalismo daqueles que se apresentam como “indivíduos
notáveis” e se creem dotados de atributos especiais. Nada há de estranho em
estar ao lado de Marina Silva, outra dessas “personalidades” transbordantes de
si mesmas, que se projetam acima dos partidos e pedem um cheque em branco ao
eleitor (pretensamente garantido por seus “bons propósitos”).
Do modo como está formulada, a
candidatura de Aécio traz uma contribuição para a consolidação de nossa cultura
democrática. O pernambucano aposta nos preconceitos antipartidários e no velho
estereótipo de que, na escolha eleitoral, o importante é “a pessoa do
candidato”. O mineiro não esconde de que lado está e a quem está ligado. Sem
discutir sua motivação, o relevante é o fato de educar o eleitor, enquanto o
outro quer se aproveitar de seu equívoco.
Dizê-lo não é avaliar a utilidade estratégica das opções de ambos.
“Tucanizar-se” pode ser (muito) nefasto para as pretensões eleitorais de Aécio,
enquanto fingir-se “apartidário” pode ser uma estratégia esperta de Campos. Ou
vice-versa.
Nada disso deve, porém, ter consequências de curto prazo nestas
eleições. Mantidas as tendências conhecidas e a se considerar o cenário da
disputa a seis meses do pleito, a chance de qualquer um dos dois,
independentemente do que fizerem, é pequena. Dilma Rousseff é a favorita.
A discussão concentra-se no que
deve acontecer no médio e longo prazos. Nesse horizonte, quem faz a coisa certa
é Aécio Neves. Se não tomar cuidado, o futuro de Campos é ser mais um jovem
político promissor perdido no meio do caminho. A estrada está cheia deles.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/793/aecio-e-eduardo-8578.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário